Diocese de São João da Boa Vista  - Caconde - SP

 

 

O Brasão da Basílica

 

         O Brasão de Armas da Basílica Santuário de Nossa Senhora da Conceição de Caconde consta de um escudo azul, cortado em quatro quadrantes desiguais por uma cruz amarela, deslocada para a esquerda. O escudo está sobreposto à tiara papal, que por sua vez se sobrepõe às chaves de São Pedro. Tiara e chaves alternam amarelo, branco, azul e vermelho, cores presentes na bandeira do Estado do Vaticano. Tiara Pontifícia e Chaves de Pedro são símbolos da Santa Sé Apostólica, concedidos à Basílica como um privilégio; representam a unidade espiritual, o amor e a submissão desta Basílica à Cátedra de São Pedro, (“a presidência da Caridade”, segundo Santo Inácio de Antioquia), na figura de seu sucessor, o Santo Padre.

        O escudo com a cruz amarela é o do Papa João Paulo II; presta uma homenagem a este Santo Padre, em cujo pontificado, no ano de 2004, a Igreja Matriz de Caconde, atual Basílica, foi elevada a Santuário. Como a tiara e as chaves, o escudo assim concebido é um sinal de amor, obediência e comunhão com a Santa Sé.

        A cor azul do escudo corresponde ao magnífico céu de Caconde e às águas da represa, aptos a receberem os signos impressos em cada quadrante: a concha mergulhada nas águas; a lua crescente, o campanário e as montanhas destacados contra o céu. O azul do céu quer honrar Nossa Senhora, pois é a cor do cinto que ela usava ao aparecer para Bernadete Soubirous e ao revelar para esta menina que era a Imaculada Conceição (“Je suis l’ Immaculée Conception”); é o que singelamente cantam estes antigos versos: “Vestida de branco ela apareceu / trazendo na cinta as cores do céu”. O azul da água torna presente o sacramento do Batismo, pelo qual morre submerso o homem velho, escravo do pecado, e nasce o homem novo, liberto, filho de Deus em Jesus Cristo. A cruz deslocada é a Cruz gloriosa do Senhor ressuscitado. Representada num escudo, ela tem um simbolismo guerreiro e pode ser lida como uma arma. Historicamente, a primeira vez que a cruz foi à guerra foi em 313, desenhada nos escudos das hostes do Imperador Constantino, substituindo a célebre águia romana. Este imperador tivera uma visão, em que contemplara nos céus a cruz ladeada pela inscrição IN HOC SIGNO VINCES, (com este sinal vencerás). De fato, sob a égide da cruz, ele venceu Maxêncio, seu concorrente ao governo de Roma. O resultado desta vitória foi a sua conversão, bem como a de todos os seus súditos, uma vez que estes tinham de professar obrigatoriamente a religião do soberano. Assim todo o império se converteu e o cristianismo irradiou-se por todas as nações, como profetizara Jesus. No brasão da Basílica Santuário Nossa Senhora da Conceição de Caconde a cruz conserva este simbolismo bélico, pois é a arma poderosa com que a Igreja combate as forças do mal, que fazem guerra com o reino de Jesus. A cruz é o tesouro do cristão; por isso é amarela, lembrando o ouro precioso. Na cruz Jesus Cristo pagou nossos pecados, obtendo de Deus Pai o perdão de nossas culpas; do alto dela soprou sobre nós o Espírito que nos dá a vida nova, a certeza da ressurreição e da posse do paraíso. Um antigo hino da Igreja fala da cruz como a árvore da vida eterna, em oposição à árvore primordial de onde nossos antigos pais colheram o fruto da morte; identifica-a com o leito de amor onde o Senhor nos desposou, fazendo-se uma só carne com nossa humanidade de pecado e amando-nos até o fim. Para o cristão a cruz é o símbolo do sofrimento redimido, pois nela está impresso o amor de Deus, o rosto misericordioso do Pai. Só a cruz nos salva, por isso não há cristão sem cruz. Do lado aberto de Jesus crucificado a Igreja bebe como que das fontes do Mistério Pascal; dali brotam os sacramentos que a alimentam e fortalecem em sua peregrinação rumo à glória celeste; dali brota também a força do alto para sua missão de anunciar o Evangelho da salvação a todos os povos.

        No quadrante superior esquerdo do escudo está uma concha amarela, como que de ouro, homenagem a S.S. Papa Bento XVI, que elevou o até então Santuário à dignidade de Basílica Menor. Uma grande concha de ouro encontra-se no ponto mais nobre do escudo pontifício, referida a uma antiga tradição: conta-se que Santo Agostinho envidava todo o esforço para submeter ao entendimento racional o dogma da Santíssima Trindade; encontrou certo dia na praia um jovem que tentava esvaziar o mar com uma concha; o santo advertiu-o da impossibilidade de seu intento, ao que o jovem lhe respondeu que mais impossível era o dele, de pretender limitar o mistério incomensurável de Deus à exigüidade da inteligência humana. Duas lições daí se depreendem: Deus é maior que a nossa razão – mas esta é impelida a buscá-lo sempre, mesmo na humildade de suas capacidades; o conhecimento de Deus é inexaurível, é como a fonte da qual se bebe sem nunca saciar a sede; desta forma, é impossível deixar de beber dele. Além disso, a concha há séculos simboliza o peregrino, que dela precisa para colher a água que lhe mitiga a sede na caminhada; S.S. Bento XVI quer manter vivo este simbolismo, seguindo as pegadas do Papa João Paulo II, grande peregrino em todas as partes do mundo. S.S. Bento XVI usou uma casula com o desenho em destaque de uma grande concha, na solene liturgia que marcou o início de seu pontificado, domingo, dia 24 de abril de 2005. O símbolo da concha também está presente no brasão do antigo mosteiro de Schotten, perto de Regensburgo, na Baviera, ao qual o então Cardeal Ratzinger era espiritualmente muito ligado.

         No quadrante superior direito está o crescente branco da lua, como que de prata; é o emblema de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Caconde, já presente no brasão de armas da cidade. O livro do Apocalipse descreve uma mulher que apareceu no céu, vestida com o sol, tendo a lua sob os pés e uma coroa de doze estrelas. Esta mulher é a Virgem Maria, invocada sob o título de Nossa Senhora da Conceição. Tem a lua sob os pés, porque o Senhor a elevou acima de todas as criaturas; a lua é branca, porque Maria, que se lhe sobrepõe, é mais alva do que ela, mais pura, como diz o conhecido cântico: “Bela tu és qual sol, alva mais que a lua.” Maria tem a lua sob os pés, porque pode esmagá-la: a lua é um símbolo de inconstância, de fragilidade de fé – que é vencida pela fidelidade e obediência daquela que disse “sim”, “faça-se”, e nunca voltou atrás.

       Um campanário branco está no quadrante inferior esquerdo. É o campanário da Sacrossanta e Papal Basílica Liberiana de Santa Maria Maior, em Roma, com a qual a Basílica Santuário Nossa Senhora da Conceição de Caconde possui um Vínculo Perpétuo de Afinidade Espiritual, desde 26 de outubro de 2006. Em virtude deste vínculo, a Basílica de Caconde goza das mesmas prerrogativas espirituais da Basílica romana, incluindo os dias de indulgência. A Basílica de Santa Maria Maior é uma das quatro Basílicas Papais de Roma. Foi construída entre 432 e 440, durante o pontificado do Papa Sisto III, e dedicada ao culto de Maria, Mãe de Deus, logo depois que o Concílio de Éfeso proclamou o dogma da Divina Maternidade. Entretanto, como a data da fundação da Basílica remete ao pontificado do Papa Libério (352-356), ela é também conhecida como Basílica Liberiana. É a igreja mais antiga do ocidente dedicada à Virgem Maria, que aí é invocada sob o título de Nossa Senhora das Neves.

 

        Diz antiga tradição que certo patrício romano chamado João, de comum acordo com sua esposa, resolveu dedicar seus bens à honra da Mãe de Deus, mas não sabia como fazê-lo; o Papa e ele tiveram o mesmo sonho, de que a Virgem desejava que lhe fosse construído um templo exatamente no lugar em que o Monte Esquilino aparecesse coberto de neve. No dia 5 de agosto, em pleno verão, nevou sobre este monte, e a Basílica ergueu-se precisamente no terreno que apareceu nevado. No dia 5 de agosto de todos os anos celebra-se a festa da Dedicação da Basílica de Santa Maria Maior. O campanário do brasão de armas chama à oração, que é o pedido veemente de Maria em todas as suas aparições; lembra o soar dos sinos que precede à celebração dos santos mistérios. É branco, cor da paz, porque, servindo à convocação da assembléia, ajuda a construir a unidade e a comunhão.

 

 

 

 

           O quadrante inferior direito é preenchido pelas montanhas amarelas, como que de ouro. Montanhas que estão presentes no brasão da cidade de Caconde, encimando a inscrição “Aeque aurum aura” (como o ouro a altura), comemorativa da extração deste metal, marcante na história cacondense. A cidade de Caconde está como que alcandorada sobre os montes; é rodeada pelo panorama magnífico da Mantiqueira, celebrado nestes versos de seu hino: “Avistas a Faisqueira/ que é a fronteira/ de Minas Gerais”. Diz o salmo: “Levanto meus olhos para os montes, de onde me virá o auxílio?” É realmente dos montes que nos vem o auxílio, dos montes das Sagradas Escrituras, conforme diz Santo Agostinho. Do Monte Sinai, onde nos foi dado o Decálogo; do Monte Tabor, onde Jesus foi transfigurado; do monte dos montes, o Calvário, onde Jesus foi crucificado para a remissão de nossos pecados. Assim, contemplar os montes deste brasão de armas é como que olhar para a cruz de Jesus e sentir-se salvo. O lema do brasão de armas da Basílica Santuário Nossa Senhora da Conceição é a frase latina “IN DOMINIIS TUIS”, que significa “EM TEUS DOMÍNIOS”, isto é, nos domínios da Senhora da Conceição. Todo o Brasil, desde os primórdios da colonização, sempre pertenceu de direito a Nossa Senhora da Conceição. O Alvará Régio das Cortes Portuguesas de 25 de março de 1646, promulgado por Dom João IV, proclamou Nossa Senhora da Conceição como Padroeira e Rainha de Portugal e de todos os domínios portugueses, conferindo a ela as honras de soberana e oferecendo-lhe a coroa real. A partir de então, nas representações e retratos, os monarcas da Dinastia de Bragança não mais ostentaram a coroa, que aparece sobre uma almofada, e a cerimônia da coroação dos reis de Portugal passou a denominar-se Aclamação. Como fosse o Brasil colônia de Portugal, foi também posto sob a soberania e proteção de Nossa Senhora da Conceição; por isso muitas cidades brasileiras nasceram da invocação de Nossa Senhora da Conceição.

           Em 6 de fevereiro de 1818, D. João VI foi aclamado Rei de Portugal, estando no Brasil; para agradecer a Nossa Senhora da Conceição, criou a Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, porque é em Vila Viçosa, Portugal, o Solar da Padroeira deste país. Dom Pedro I, sucedendo ao pai, confirmou o Brasil e o Império à proteção de Nossa Senhora da Conceição, associando-lhe São Pedro de Alcântara. O lema do brasão de armas “EM TEUS DOMÍNIOS”, que confere à Senhora a posse de Caconde, é inspirado pela expressão “nos domínios da Senhora da Conceição”, da Polyanthea de 1924 do Comendador José Umbelino Fernandes Junior, que historia a origem da cidade de Caconde; a expressão foi empregada na narrativa da restauração, em 1824, da antiga Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Bom Sucesso das Cabeceiras do Rio Pardo, fundada em 1775, pelo Padre Francisco Bueno de Azevedo, primaz fundador da paróquia e da cidade de Caconde. A expressão foi retomada pelo historiador Adriano Campanhole, na “Exaltação” que está em seu livro Memória da Cidade de Caconde. Além disso, a expressão refere-se também à doação a Nossa Senhora da Conceição das terras do patrimônio da cidade de Caconde, pelo casal Miguel da Silva Teixeira e Maria Antônia dos Santos. O lema “EM TEUS DOMÍNIOS” entrega à Senhora da Conceição principalmente as almas e corações dos fiéis que habitam ou peregrinam em seus domínios e invocam-na como Mãe, Mãe da humanidade, Mãe de Cristo, Mãe da Igreja. “Ó minha Senhora e também ó minha mãe/ eu te consagro e te dou meu coração”.

 

LAUS SIT DEO, LOUVADO SEJA DEUS. Prof. Célia Mariana Franchi Fernandes da Silva.

 

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